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Dar a ler (notas de tradutores) #2

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De leitora a tradutora de Enid Blyton

 

O prazer de reler Enid Blyton enquanto sua tradutora! Num piscar de olhos, as sinapses restabelecem o caminho e estou a cantar o genérico da série televisiva. De seguida, a limonada torna-se a bebida diária, a expensas da barriga, mesmo no inverno, porque as memórias mandam mais do que o tempo atmosférico. Recordo o meu grupo de amigos: queríamos ter crachás como os Sete e resolver os imaginados mistérios daquela rua suburbana ou, então, escapar aos pais nas férias e partir de bicicleta à aventura, entremeada de lautos piqueniques.


Arrisco a desilusão ao revisitar com um olhar adulto um lugar onde fui feliz. Descubro, num exercício de autopsicanálise, que os fruit cakes são os responsáveis pela minha obsessão por bolo inglês. Os três irmãos, a prima (e o rafeiro, entretanto trasvestido de border collie) são um grupo de portugueses emigrados em Inglaterra, há «buracos» no tecido das histórias por onde agora a luz incide ofuscantemente, há iguarias (cerveja de gengibre, rebuçados de cevada, macaroons) que, perdidas nas traduções de outros tempos, porque se queria aproximar as histórias das crianças portuguesas, são recuperadas para se aproximar as crianças portuguesas do mundo, passado e presente. É uma espécie de evolução na continuidade, um piscar de olhos aos pais que leram os livros e querem passar o testemunho aos filhos, a literatura como elo de ligação intergeracional.


Cristalizados no tempo (não envelheceram nem um minuto!), continuam a ser populares, mesmo não espelhando fielmente a realidade; não há telemóveis, portáteis ou tablets, mas há um mundo vasto ao alcance de um comboio ou de uma bicicleta, há a camaradagem e um grupo de irmãos, primos e amigos que nos compreende como ninguém. Quem nunca quis um barracão ou uma ilha só sua? Quem nunca quis ser um dos Cinco?

Wherever there’s adventure to be found, just a clue or a message brings the Famous Five around… We [all] are the Famous Five.

 

Eugénia Antunes


 

Caixinhas

 

Há muito que tenho dificuldade em lidar com a ideia de dividir tudo em categorias fechadas e, por isso, quando cheguei ao fim do 9º ano, não consegui perceber por que razão tinha de escolher entre Português A e Matemática. Embora não pretenda discutir o nosso sistema de educação, a especialização excessiva aos 14 anos parece-me ser um problema que se estende a muitas áreas da vida. Em tradução, por exemplo, estamos demasiado habituados a arrumar tudo em duas grandes caixas muito bem etiquetadas: a «tradução técnica» e a «tradução literária», que se dividem em subcaixas, como a «tradução de não-ficção», que por sua vez inclui, entre outras, a caixa da «tradução científica». Ufa…


Antes de ter mudado para a Faculdade de Letras, frequentei a de Ciências e talvez por isso me venham por vezes parar às mãos livros de ciência. Um deles foi O Canto da Célula, de Siddhartha Mukherjee, que saiu em Março deste ano pela Editorial Presença, e, enquanto traduzia, fui recordando e aprendendo muitas coisas. Apesar de aprender ser um dos grandes motivos por que gosto de traduzir, e embora me tenham entusiasmado histórias como a da descoberta dos neurónios, a grande surpresa do livro foi o amor evidente que o autor tem pela literatura, em particular pela poesia. Além de, em cada capítulo, Siddhartha Mukherjee nos contar uma história, o autor cita vários poemas para ilustrar pensamentos e ideias que vai tendo. Por isso, ao longo das 608 páginas do livro, dei por mim não só a tirar dúvidas técnicas com amigos médicos e biólogos, mas também a traduzir poemas de autores como Kay Ryan e Samuel Taylor Coleridge. A pergunta que fica é, pois, em que caixa da tradução arrumar um livro como O Canto da Célula. Afinal, «tradução literária» e «tradução científica» nem sempre se podem arrumar em caixas diferentes, e muito daquilo que fazemos é precisamente desarrumar tudo e tirar as etiquetas.

 

Maria Rita Furtado


 

As Três Vidas d’A Montanha Mágica

 

Celebra-se em 2024 o centenário da publicação de um dos mais icónicos clássicos da literatura universal, A Montanha Mágica. Nele, Thomas Mann retrata o sanatório de tuberculosos em Berghof, que o protagonista Hans Castrop visita para ver o seu primo enfermo, acabando ele próprio por aí permanecer sete anos na companhia de pessoas altamente singulares. Berghof, porém, não é só um mundo de tísicos confinados, mas também um símbolo de uma Europa doente em vésperas da Grande Guerra.

Acontece que o romance de Thomas Mann foi sempre um dos livros preferidos de Olga Tokarczuk, que ao longo dos anos buscou forma para o versar. Empúsio — amálgama de Empusa e Simpósio — é justamente um pastiche de A Montanha Mágica e, como o subtítulo indica, é um romance de terror naturopático que se passa no sanatório de Görbersdorf, onde um grupo de cavalheiros explora ideias misóginas e o jovem Mieczyslaw Wojnicz se debate com questões de identidade de género, enquanto na floresta todos os anos um jovem é estropiado.


Quando Olga Tokarczuk publicou o seu romance em 2022, esgotaram-se na Polónia as edições d’A Montanha Mágica. É caso para invocar o pensamento de Walter Benjamin de que as obras literárias, quando traduzidas, ganham uma segunda vida — Nachleben. E quando essa obra é alvo de pastiche? Diríamos que ganha uma terceira vida. Foi o que aconteceu ao clássico de Thomas Mann, escritor alemão, quando Olga Tokarczuk, escritora polaca, decidiu travar um diálogo intertextual e narrativo com ele.

 

Teresa Fernandes Swiatkiewicz

4 min de leitura

jun 20

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