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Dar a ler (notas de tradutores)

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N. da T.

 

Tenho na tarimba a tradução de textos de crítica e teoria literária, cujo objeto são outros textos — de poesia, prosa, teatro, mesmo de cinema. Em todos eles, a língua inglesa é a minha língua de partida; porém, os segundos, objeto dos primeiros, frequentemente oriundos de outras línguas, passaram por ser vertidos para o inglês em que os encontro. Este fenómeno é um dos que ao mesmo tempo dificultam e tornam apelativa a tarefa de tradução, sobretudo por quem sente o fascínio da literatura e da teoria literária. Vi-me grega, por exemplo, para passar para língua portuguesa textos que começaram por ser escritos precisamente nessa língua. É o caso do ensaio de Hans Gumbrecht «Sem Saída / Sem Entrada», o terceiro de Depois de 1945: Latência como origem do presente (publicado em 2014 pela Editora da UNESP, no Brasil). Entre passagens de Jean-Paul Sartre e Samuel Beckett, de Wolfgang Borchert e Luis Martín-Santos, Gumbrecht cita João Guimarães Rosa — escritor brasileiro, tal como brasileira foi a editora para a qual traduzi. A obra de Guimarães Rosa que Gumbrecht cita é, sem surpresa, Grande Sertão: Veredas, por si só um desafio de linguagem literária. As viagens a que me vi obrigada entre o texto em inglês, edições do grande romance brasileiro, e novamente versões inglesas, até chegar à citação correta — necessariamente correspondente ao que existe publicado — viriam a ser novas entradas minhas, muito felizes entradas minhas em Grande Sertão... Acontece, por vezes, o sentido do que Gumbrecht assinala nas citações ser mais evidente na versão em língua inglesa do que no original brasileiro. Nesses momentos, para que quem lê possa entender a amplitude do que Gumbrecht escreve e as nuances do que escreveu Guimarães Rosa, sento-me num dos lugares de onde mais gosto de apreciar a riqueza da literatura: as «Notas da Tradutora».

 

Ana Isabel Soares


Outrora e Outros Tempos, de Olga Tokarczuk

 

Este livro acompanha-me há mais de 20 anos — li-o, reli-o várias vezes e, por fim, traduzi-o para a editora Cavalo de Ferro. Entro nele como quem entra numa catedral e contempla um retábulo de três níveis, cada um composto por vários painéis. Tal é, pois, a estrutura do romance. Cada capítulo, intitulado com o nome de uma personagem, é o painel que a retrata, enquanto os três níveis do políptico correspondem às três gerações de habitantes da aldeia mítica de Outrora. Quem quiser conhecer a história da Polónia do século XX (I e II Guerras Mundiais, comunismo e sua queda) em 270 páginas tem aqui a oportunidade única de cruzar acontecimentos históricos e vidas de personagens genialmente desenhadas. Quanto à narrativa, é puro realismo mágico na versão europeia, imbuído do espírito do Eclesiastes — há um tempo para nascer, outro para viver e amar, e, por fim, morrer, em sintonia com o espírito da Natureza e o ritmo das estações do ano.

Garanto que, no que diz respeito a estrutura narrativa e a ficção, nunca leram nada igual. Esta é para mim a obra-prima de Olga Tokarczuk e é também o livro preferido de alguns tradutores da nobelizada polaca.

 

Teresa Fernandes Swiatkiewicz


Leonard Cohen, Canções

 

Leonard Cohen foi a minha alma gémea e objeto amoroso imaginários desde o 9.º ano. O meu primeiro poema rejeitado foi uma carta inexpedida que não deitei fora e ando farta de procurar sem êxito. O refrão era «tu e eu, Leonard». Havia de viver mais de quarenta anos na contemporaneidade de Cohen sem nunca lhe ter dirigido a palavra. Aos meus 24, caiu-me no colo a tradução do romance Beautiful Losers. Estávamos na pré-internet, e eu, na biblioteca, extasiada, deixei-me emparedar pelos tomos da Britannica e da Luso-Brasileira para viver entre os iroqueses com Leonard Cohen, que, pela sua parte, me ignoraria em preces e engates e angústias lá longe no Canadá ou na ilha grega a carpir por uma norueguesa. Um par de anos mais tarde, no auge tresloucado da húbris, aceitei traduzir-lhe as canções, o que me valeu a dizimação pelo mais cáustico crítico da era. Ainda por cima tinha razão. O crítico cilindrou-me os disparates, entre os quais — tremo — o de ter traduzido Book of Changes por Livro de Câmbios, quando afinal era o venerando I-Ching. O drama para mim foi ao ponto de quase me ver protagonizando a história, tantas vezes repetida pelo editor da obra, sobre o tradutor que se enforcara com os cabos da impressora, como se fosse anedota para rir. Por seu turno, lá em casa, o cônjuge consolou-me com dichotes aos gorjeios de Leonard, que ele achava uma pieguice pegada sobre o som de fundo do padre Zezinho.

O crítico também azedou com o travo das minhaslyrics, e eu realmente estava verde nas rimas por virar e no braço de ferro entre sentido e sílabas, que espero ter apurado na segunda edição do livro.  Se não bate a letra com a musiqueta, se não entra na pauta da nossa cabeça, a tradução de canção torna-se um esqueleto sem acentos. E tu, Leonard, largaste-me aos bichos, mas não soubeste quem eu sou.

 

Margarida Vale de Gato


Algumas perdas

 

Por vezes, na vida de uma tradutora, acontece ser-nos proposto um livro que não esperamos ou não conhecemos e que, de algum modo, nos muda. Foi o meu caso, quando o editor da Elsinore me propôs traduzir Inventário de Algumas Perdas, de Judith Schalansky.

O livro é composto por doze textos que, como o título sugere, versam sobre coisas que desapareceram e que sobrevivem apenas como fragmentos, como ruínas, como fósseis ou na memória — a submersão de uma ilha no Pacífico, a extinção do tigre-do-Cáspio, ou as canções de amor de Safo. Concomitantemente, pode-se dizer que os protagonistas destes textos são pessoas que se insurgem contra a efemeridade, contra a morte e o esquecimento, entre eles a própria autora.

É, aliás, isso que a leva a fazer uma apaixonada defesa do livro, o medium mais perfeito: «[o livro é] uma cápsula do tempo aberta na qual os indícios do tempo decorrido entre a sua escrita e a sua impressão ficam registados e na qual cada edição de um texto revela ser um espaço utópico, não desprovido de afinidades com uma ruína, em que os mortos falam, o passado vive, a escrita é verdadeira e o tempo suspenso.»

O livro é de um grande virtuosismo. Virtuosismo técnico: na edição original, cada texto foi concebido de maneira a ocupar 16 páginas, o que corresponde a um caderno dos vários que compõem um livro ao ser impresso. Virtuosismo literário: cada texto tem um estilo próprio conforme a perda que retrata. Virtuosismo linguístico: entre as palavras que tive de procurar e aprender para esta tradução contam-se selenografia, ligre, pritaneu, fórminx, bárbito, trígono, aposiopese, adónio e inúmeros termos botânicos.

O parágrafo anterior dá uma ideia das dificuldades com que depara quem traduza este livro. Não obstante, porque um livro fora de série é sobretudo uma inspiração, mais do que uma corrida de obstáculos, a tradução fez justiça ao original e granjeou uma menção honrosa do prémio APT desse ano. Ao mesmo tempo, porque foi muito morosa, nos meses que lhe dediquei, ganhei menos do que o salário mínimo. E este parece-me ser um bom retrato da vida dos tradutores literários de há vários anos para cá: uma dieta rica para o espírito, uma remuneração que por vezes não permite a mera subsistência.

 

Isabel Castro Silva


A Sinfonia dos Animais: o Livro e a Oficina do Tradutor

 

Com o intuito de despertar nos mais novos o gosto pela leitura e pela música clássica, Dan Brown criou uma espécie de libreto ilustrado a que deu o nome de A Sinfonia dos Animais. Para essa sinfonia escreveu 20 histórias rimadas e compôs 21 peças de música inspiradas na personalidade dos vários animais que são as personagens deste livro.

Vertê-lo para português foi não só muito divertido como um enorme desafio. Era essencial manter as rimas e garantir que a sua musicalidade (tão importante nos primeiros anos de leitura) não se perdia e que encontrava eco na peça escrita para cada história. Por outro lado, a escolha do vocabulário teria de ser criteriosa, adaptada à idade do público-alvo, fosse ele leitor ou apenas ouvinte. Ou seja, recorrer a uma linguagem acessível, mas que, ainda assim, não fosse demasiado básica. Também era importante garantir que o texto fluísse e fosse «cantável», evitando cacofonias que dificultassem a leitura em voz alta. Claro que, tratando-se de um livro ilustrado, a tradução não o podia ignorar e, além da interpretação verbal, foi também muitas vezes necessária uma interpretação visual.

Estas são apenas algumas das estratégias a que um tradutor tem de recorrer. Bem vistas as coisas, também ele é o maestro de uma sinfonia.

Numa altura em que se fala cada vez mais dos perigos da IA, será uma máquina capaz de fazer tudo isto? E queremos nós que essa máquina traduza os livros da primeira infância dos nossos filhos? Continuemos, pois, a celebrar o Dia do Livro, escrito e traduzido por pessoas e para pessoas.

 

Dina Antunes


A escolha do título

 

Não costuma caber aos tradutores escolher o título dos livros que traduzem. Por razões comerciais, reserva-se a decisão ao departamento editorial. Há, porém, casos em que a opinião de quem traduz é tida em conta para a decisão final, como em A Hora dos Lobos, de Harald Jähner, que traduzi em 2023 para a D. Quixote.

A tradução literal do título original seria efectivamente A Hora do Lobo ou A Hora dos Lobos, já que a palavra composta em alemão, «Wolfszeit», permite tanto o singular como o plural, podendo o singular assumir o sentido colectivo de «o povo alemão». Mas seria viável ou vendável? A tradução inglesa do mesmo livro omitiu no título qualquer referência lupina, remetendo, com um monótono Aftermath, para um livro banal sobre o pós-guerra. Bocejo. É que estamos perante um livro tudo menos banal.

Comecemos pela capa: na edição alemã, a capa mostra um homem a caminhar sozinho pelos escombros, de cesto de piquenique na mão, como se andasse às compras — ou qual lobo solitário a farejar em busca de alimento, à procura da Capuchinho Vermelho? Conjecturo.

Apresentei ao editor uma enumeração das várias peças que, ao longo do livro, permitem montar o puzzle desta alcateia: de um lado, temos o lobo astuto em representação do inimigo, do outro, o lobo cauteloso e protector da sua alcateia; numa acepção mais carnal, encontramos os lobos personificados pelos oficiais russos que protegem as belas amantes alemãs dos restantes elementos da alcateia. Invertendo-se os papéis, respeitam-se os lobos diligentes, ao passo que se desprezam os cordeiros passivos e imaturos. Sem esquecer que, na nova cidade de Wolfsburg, os lobos andavam de Carocha, ou aqueles que, quais lobisomens figurados, empunhavam metralhadoras.

Não havia dúvidas, assim, de que urgia preservar os lobos. Aos mais distraídos, o subtítulo A vida dos alemães no rescaldo do III Reich avisa ao que se vai.

 

 Mónia Filipe



A maquinazinha antecipou-se

 

No Verão de 2020, enquanto traduzia o primeiro conto do livro Histórias Alegres, de Carlo Collodi, publicado em 2022 pela E-Primatur, esbarrei numa dificuldade no título: «L’omino anticipato. Ossia la storia di tutti quei ragazzi che vogliono parere uomini prima del tempo.» A dificuldade estava, pois, no termo «anticipato». Como vertê-lo para português mantendo o sentido e a inteligibilidade, e não repetindo os termos da segunda parte do título? O homenzinho antecipado, apressado, adiantado, precoce? Depois de testar várias hipóteses, nenhuma das quais me convencia, e de ter consultado o editor, optei por um título um tanto perifrástico, mas que, na minha opinião, era gracioso, captava o tom do conto e permitia evitar repetições: «O homenzinho que ainda não o era. Ou a história de todos os rapazes que querem parecer homens antes do tempo.»

Tem-se escrito e debatido acerca da possibilidade de os serviços de tradução automática substituírem as traduções feitas por pessoas. Em 2020, nunca tinha ouvido do DeepL, um desses serviços (que, ao que parece, já existe desde 2017). Quis fazer agora uma experiência e ver como se safava «o melhor tradutor automático do mundo» a traduzir o título em causa. O resultado, no dia 20 de Abril de 2024, foi: «O homenzinho antecipou-se.» Dir-me-ão que não foi uma competição justa, que a «máquina» só teve acesso a duas frases, que eu usei a versão gratuita do serviço. Ainda assim, atrevo-me a dizer que nunca será uma competição justa: ao contrário do rapaz do conto, que, um dia, a seu tempo, será um homem (tal como, um dia, o boneco de madeira da outra história de Collodi se transformou num rapaz de carne e osso), o texto traduzido pela máquina nunca será senão um simulacro de linguagem.

 

Ana Cláudia Santos


Uma Vida Violenta, de Pasolini — um romance extraordinário

 

Um dos livros que mais gostei de traduzir — pelo prazer que me deu e pelos desafios que me pôs. O primeiro deles: o uso do dialecto romanesco nas falas de algumas personagens (sobretudo porque o dialecto funciona aqui como uma espécie de marcador social).

Diz-se por vezes que numa tradução se perde sempre alguma coisa. A ser assim, seria a dobrar o que na tradução deste romance se perde. Uma Vida Violenta é uma narrativa cruamente realística, e a fala das personagens, jovens marginais cínicos e amorais, com largo recurso ao calão e ao dialecto romanesco, resulta na criação de uma linguagem que não recua perante a rudeza e a obscenidade, o que afinal mais não é do que a transcrição fiel da fala e da vida violenta do mundo que retrata.

Na época em que escreveu esta obra, Pasolini dedicava um grande interesse ao uso do dialecto entre as populações suburbanas de Roma, tendo publicado vários artigos sobre esse tema. Juntamente com Ragazzi di Vita (e os filmes Accatone e Mamma Roma), este livro assinala o aparecimento de uma realidade social que não merecera ainda expressão literária: a emergência de um subproletariado da periferia romana, um universo degradado surgido de uma cidade destruída pelos bombardeamentos da II Guerra Mundial e alimentada pelas vagas migratórias do êxodo rural que se seguiu à guerra. As barreiras linguísticas são apenas mais uma fronteira a delimitar este universo. De tal modo que o próprio autor sentiu a necessidade de incluir na versão italiana um glossário final (com cerca de 400 palavras e expressões), de correspondência entre o «italiano padrão», se é que tal coisa existe, e os termos de calão e de dialecto usados no livro.

Como bem se compreende, torna-se quase impossível nas traduções para outras línguas, e sobretudo no caso de países em que não há dialectos com as mesmas características, dar uma imagem fiel dos recursos utilizados pelo autor. Tentei, por isso, explorar outros meios para dar uma aproximação dessa particular sonoridade do texto de Pasolini, utilizando um calão urbano, por vezes com reminiscências nortenhas, de registo e «grau vernacular» aproximados.

Mais do que encontrar correspondência literais, o importante era reconstituir o uso que Pasolini faz do dialecto e do calão como recurso linguístico — nem artifício superficial, nem mero apontamento de documentário.

 

José Lima


10 min de leitura

abr 23

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