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Prazeres e amarras da tradução literária

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(adaptação do texto apresentado na mesa do Festival Literário Correntes d’Escritas “Deixa-me soltar estas palavras amarradas” [verso de Joaquim Pessoa] a 21 de fevereiro de 2024)


O poeta, mergulhado no movimento do idioma, um constante vaivém verbal, escolhe umas quantas palavras – ou é escolhido por elas. Ao combiná-las, constrói o seu poema: um objeto verbal feito de signos insubstituíveis e inamovíveis. O ponto de partida do tradutor não é a linguagem em movimento que o poeta tem por matéria-prima, mas a linguagem fixa do poema. A linguagem congelada e, não obstante, perfeitamente viva

(Octavio Paz, palestra de 1970, “Traducción: literatura y literalidad”).


Então, o tradutor não tem por ponto de partida a solta fluidez das palavras, mas a sua forja, as suas amarras. Coloquemos, na citação de Paz, as “palavras amarradas”, e teremos também uma boa metáfora para o médium da tradutora: palavras amarradas e, não obstante, perfeitamente vivas. É ofício da tradutora, ao estilo pandórico ou houdiniano, não deixar morrer as palavras, e em bom rigor prestar-lhes respiração boca a boca. Tem, convenhamos, o seu picante: boca a boca noutra língua, noutro espaço e noutro tempo, sem descurar a responsabilidade do frescor, perfeitamente vivas. E é este o prazer, o de desprender o fixo, ramificar e voltar a arraigar, e levar nisso a terra das raízes e misturar, e enxertar. Ou: no novo solo criar o orgânico a partir da combinação de diferentes estratos, os quais são assim enunciados por João Barrento em O Poço de Babel (Relógio d’Água, 2002): o léxico e a sintaxe, que trazem consigo um modo de pensar; a fonologia (e mais latamente a prosódia) que traz consigo um modo de entoar (sendo tão importante, para o tradutor-leitor a sua escuta); a decidibilidade semântica e a reconstituição pragmática que são os campos privilegiados onde se dá o jogo, a interação das culturas, o transporte. Dicionários não chegam: é imensa a quantidade de corpora paralelos, de edições anotadas, de livros de história, guias de viagem e reais viagens, e ademais algum controlo sobre a vertigem da mudança inesperada do padrão, que uma tradutora tem de ter em caixa, ou então empreender de modo obstinado, para soltar as amarras de um único verso e o levar a outro porto.


O que requer, tal como o poema traduzido – corpo, experiência, recriação e memória, além de “estudos”. É por isso que a Inteligência Artificial, por mais que a alimentem de memórias criadas por outros (de modo ilegal, note-se, sem garantias de cedência de direitos), presta um fraco serviço tanto aos leitores como à literatura: seja por simular comunicações mas vacilar nas expressões afetivas, seja por as suas relações se basearem em comandos, seja por combinar probabilidades mas se sair mal no reconhecimento de imprevisibilidades, seja ainda por o ciborgue ter dificuldades em conciliar reprodução com geração heterogénea, convivendo mal com o híbrido ou delirando no erro. Já a tradutora, por seu lado, educou-se no fascínio do erro, da errância, da estranheza e do exílio.


É pena que haja uma parte preocupante de gestores editoriais que vacilem no comprometimento com essa errância ao anteciparem vantagens no uso de inteligência artificial para traduzirem livros supostamente “menos exigentes”. Foi o que fez, numa declaração recente, Pedro Sobral, CPO da Leya e presidente da APEL, admitindo que assim se pouparia dinheiro que permitiria margens e, enfim, “pagar um pouco mais aos tradutores já existentes”(entrevista à Antena 1, 29/01/24). Não sei se houve intenção, mas a expressão é especialmente desesperançosa – como será com os tradutores por vir? Como será com os meus alunos, e as centenas de outros em cursos de tradução no país? Teremos os dias contados?


“A saudade escreve e eu traslado”, diz Camões. Na verdade, a transladação, que vem do étimo de tradução, não pretende tanto carregar o cadáver mas exumar o santo, o herói ou notável para que revigore o lugar de acolhimento. “A saudade escreve e eu translado” foi um verso que Landeg White, tradutor quer dos Lusíadas quer da Lírica de Camões, verteu assim: the heartbreak writes, and I translate (The Collected Lyric Poems of Luís de Camões, 2008). Já repeti este exemplo várias vezes e não me canso de o fazer porque é lindíssimo. Ainda que para os nacionalistas, ou empedernidos de raiz, seja um ai-jesus passar da saudade para o heartbreak, reparem na bela renda, no belo entrelaçado de ei r t s: the heartbreak writes, and I translate — na emoção contida da expressão de distância, afim da requerida ao tradutor, que é traduzir, não o autor, mas o rompimento do coração, dor fingida que deveras sente.


Também os detidos podem ser transladados de prisão, pelo menos em italiano: tradurre il detenuto — levar um texto para outro chão arrastando o dele, carregando as correntes de sua cultura e língua e tudo o que nela traficou o seu autor, e tudo o que a partir deles traficámos. Daí a desconfiança tida para com os tradutores — basta ler os relatos dos nossos cronistas “exploradores” sobre os línguas, ou os intérpretes, falantes do nativo e do alheio, levados a bordo para indicar rotas e tomados por culpados de todo o mau cálculo. Mas como prescindir dessas amarras da tradução, de nós, que somos metecos do litoral? De nós, que apreciamos ser vasos, barcas, solícitos estafetas, muito embora cobremos por caracteres, contando os espaços?


A questão da cobrança não é de somenos. Os tradutores literários precisam de ser escutados. Somos essenciais para um mercado em que as obras traduzidas representam uma parcela enorme de tudo o que se publica (mais de 60% da ficção, por exemplo). Apesar disso, os nossos salários não são atualizados desde o início do século. Para mais, assistimos a uma progressiva erosão do nosso estatuto autoral, que está bem consagrado pela lei portuguesa, no Código dos Direitos de Autor e Direitos Conexos.


Acreditemos: nem tudo está perdido, desde que continuemos a conversar com e como humanos. Pedro Sobral reuniu recentemente com representantes, quer da APTRAD, quer de um recém-formado grupo de tradutores literários [entretanto aparecido com a plataforma CTL - Colectivo de Tradutores Literários], e dispôs-se a dinamizar na APEL mecanismos de visibilidade e de sensibilização, designadamente a sugestão e divulgação de tarifas mínimas recomendadas para mitigar a precariedade dos tradutores. Em relação à visibilidade, há que garantir a identificação do nome do tradutor, não só nos livros, de preferência na capa, mas também nas livrarias e plataformas de venda online onde largamente são ignorados.


Para além disso, será preciso reforçar iniciativas semelhantes às que este ano vemos acontecer na Correntes, no I Encontro de Tradução, que Michael Kleger organizou, celebrando justamente a importância do ofício em tempos de indigência. Rita Ray foi convidada a vir da Índia por ser tradutora, e sentar-se-á ao lado de um seu autor, Rui Zink, bem como de outra tradutora de Moçambique, Sandra Tamele. Precisamos que isto aconteça também com os tradutores portugueses, e parece – ainda bem – que há planos para isso já para o ano. Tal como, na reunião de júri de prémios de Casino da Póvoa, terá entrado via Ana Gabriela Macedo a sugestão de se criar um prémio de tradução.


O Código dos Direitos de Autor e Direitos Conexos que eu referi é de Março de 1985 e, segundo o seu preâmbulo, “remodela e aperfeiçoa… em especial o contrato de edição e os direitos do tradutor quanto à protecção do seu trabalho, em pé de igualdade com os dos autores traduzidos." Praticamente quarenta anos depois, o aperfeiçoamento ficou cada vez mais no papel, perdemos esse pé e amarraram-nos o outro, e cada vez mais vemos encolher os nossos direitos. Pelo que, embora modesta, a minha proposta para os 50 anos da liberdade de Abril é: desamarrem os tradutores e as palavras continuarão a ser prazeres.



Margarida Vale de Gato

5 min de leitura

abr 10

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