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Sobre a tradução de poesia

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Há um pensamento que parece consensual e uma simples questão de bom senso: é impossível traduzir poesia, não há traduções de poesia, apenas versões. A coisa entra pelos olhos dentro e poucos põem isto em dúvida. Mas será assim?

 

Essa afirmação vai esbarrar frontalmente contra uma realidade teimosa: são infindáveis as colectâneas de poesia traduzidas e o aluvião não faz menção de parar. E mais do que isso, é um insulto a uma vida (a minha) dedicada à tarefa de verter para português os mais desvairados poetas de diversas línguas.


Sim: as impossíveis traduções de poesia existem. Chamem-lhes versões, se lhes aprouver. Chamar-lhes versões é apenas desconhecer o que é uma tradução. Pensar que existe uma única tradução para cada poema e que essa tradução é exactamente igual ao original é uma falácia. Porque nada é exactamente igual ao original, nem o original.

 

De facto, lida hoje, uma poesia de Camões, de Shakespeare ou de Pessoa já não é o que foi no acto original de ser lançada ao mundo. Nesse momento inicial, imprimiu uma marca na língua, mudou-a, mesmo que imperceptivelmente, e na sua história posterior ficou carregada dos sentidos que fez ecoar posteriormente, para sempre mudada e em mudança, ela e a língua, ela com a língua.

 

Assim, a criação original é um acto histórico,é um pequeno ramo de árvore caído na corrente espessa do rio-tempo.


Quanto à tradução. Traduções há muitas e muito diversas, feitas com os mais variados intuitos. Temos, por exemplo, as edições escolares bilingues, com forte aparelho crítico, que se limitam a dar um apoio à leitura do original e a mais não aspiram. Temos as traduções utilitárias, propagandísticas, por exemplo, destinadas a celebrar uma tradição nacional. Temos ainda as traduções dos discípulos duma escola que querem divulgar uma nova corrente. Temos as que procuram dar a estranheza do estrangeiro e as que querem naturalizá-lo na nova língua. Todas estas estratégias podem ser mais ou menos conseguidas, podem satisfazer com melhor ou menor êxito os seus desideratos, mas todas são, à sua maneira, traduções.

 

Portanto, não faz sentido dizer que não é possível traduzir poesia. Mas, perguntarão: e vale tudo? Basta pôr-lhe o nome de tradução para o ser? Não é isto também uma falácia? Sim, vale tudo. A tradução pode ser péssima, mas é-o. Agora, se aspiro apenas a isso, respondo que não.

 

Uma tradução exigente, porém, não pode limitar-se a verter «o sentido» para a outra língua, não é apenas translação de língua para língua – é um trabalho sobre a língua que deve re-presentar o trabalho original sobre a língua inicial, presente no texto de partida. Com efeito, um poema insere-se num campo histórico cultural, luta com o seu contexto para lhe arrancar novos sentidos e novas formas de expressão, e essa luta deve ser reflectida na tradução. O que se traduz não é a língua, é o texto, os seus mecanismos e as suas químicas.


Não se trata apenas da métrica ou da rima quando existam, não. Há toda uma trama de elementos que conspiram para dar ao texto a sua respiração (palavras «com significado», mas palavras também «insignificantes» e até elementos como os tempos verbais, os próprios fonemas) e é preciso aprender a captá-los, para procurar transpô-los para o texto de chegada. Mas isso é outra história.

 

E agora, vou passear o cão Lucas.



Manuel Resende




Nota do CTL: Este texto foi publicado como um anexo, uma espécie de «posfácio», do livro A Grécia de que falas… – antologia de poetas gregos modernos (Língua Morta, 2021). Manuel Resende, além de autor de alguns (infelizmente, poucos) livros de poesia, dedicou uma boa parte da sua actividade e da sua vida à tradução. Traduziu vários autores e obras de um vasto leque de línguas: francês, alemão, inglês, finlandês (suomi) e grego moderno. De salientar as traduções que fez de alguns poetas gregos modernos, como Kaváfis, Elytis e Seféris, mas também de autores como Shakespeare, Kafka, Brecht e Lewis Carrol.

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