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Jogos com fronteiras

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A linguagem, a língua, as palavras são muito traiçoeiras, costuma dizer-se. Torcidas para um lado podem dizer o contrário do que diriam torcidas para o outro lado. E frequentemente o mais importante é percebermos o que ocultam, ou dissimulam.


É disso que aqui se fala.

Em tempos que já lá vão, andava eu por longes terras, deu-se o caso de ir encalhar num emprego de ambiente internacional, com colegas de vários países da Europa. À hora do café acontecia muitas vezes pormo-nos a trocar galhardetes com os clichés, frases feitas e preconceitos, uns mais inocentes do que outros, com que cada país brindava sobretudo os vizinhos mais chegados (et pour cause, diziam os franceses). Cada qual achava que a sua língua era obviamente a mais clara, a mais elegante, a mais “civilizada”. As outras eram “una algarabía”, era “hablar chino”, era “baragouiner”. Se não entendem alguma coisa, os holandeses dizem “dat komt mij Spanish voor”, os portugueses dizem “isso para mim é chinês”, os franceses dizem “parler comme une vache espagnole” (literalmente, “falar como uma vaca espanhola”. O que poderia soar como qualquer coisa vagamente surrealista, não fosse dar-se o caso de ser uma deformação de “parler comme un basque espagnol”, foneticamente bastante semelhante, mas que significa antes “falar como um basco espanhol”).


Já se sabe que todos afinavam pelo mesmo diapasão. E o que fica dito sobre as línguas que cada um falava, repetia-se no mesmo tom em relação à educação (sempre má, a dos outros), as relações com o dinheiro, com o sexo, etc., etc.


É possível que este género de expressões e palavras chauvinistas vá perdendo aos poucos a peçonha com que nasceram, à medida que se vai atenuando a memória das guerras e das atrocidades que em muitos casos lhes deram origem. Terão hoje um valor quase comparável aos mexericos entre vizinhos de condomínio, e pouco mais são do que curiosidades linguísticas enterradas em dicionários de idiomatismos.


Permanecem, porém – e é disso que aqui se trata – como cicatrizes mal saradas de velhas feridas. Assim como permanece sob outras formas o que lhes está na base: a recusa e o rebaixamento daquilo ou de quem é diferente. Pode mudar o contexto que lhes deu origem, mas as mesmas palavras envenenadas – bougnol, nègre, boche, youpin, gachupine, mouro, frogg, jerry, monhé, pakkie, terrone, e outras que me recuso a escrever – palavras a ressumar desprezo ou ódio, estão sempre prontas a reaparecer em novos contextos, novos antagonismos, reais ou imaginados, seja contra os emigrantes, ou os refugiados, ou contra os “estranhos” ou estrangeiros.

Poderá pensar-se que as palavras não matam ninguém, como por vezes se diz. Mas seria esquecer que, usadas como armas de arremesso, não é difícil passarem à acção, ao desejo de eliminar “a diferença”, com leis que banem manifestações culturais e mesmo a indumentária de quem é “diferente”, com a destruição de símbolos identitários, com as discriminações contra atitudes ou a aparência consideradas contrárias à “norma”, e até com perseguições a minorias.



O veneno das palavras



Se nos dedicarmos a um exercício de “arqueologia linguística” dessas expressões, é possível que muitas delas vão desaguar nas muitas guerras e invasões com que a Europa se foi dilacerando e desmembrando. Costuma dizer-se que a Europa é uma manta de farrapos que nos ficou como despojo de guerra. E é. De muitas guerras – cada guerra, cada novo retalho. Os tratados e as alianças urdidos pela relação de forças da altura lá foram cosendo ou alinhavando novos poíses e fronteiras, disfarçando (mal) velhos rancores, humilhações e antagonismos. Mas que, no entanto, como tudo o que é recalcado, vêm ao de cima sempre que arranjam maneira de contornar as inibições que a hipocrisia diplomática lhes impõe. Fazem-no frequentemente sob a forma de preconceitos e estereótipos que achincalham ou menosprezam os vizinhos do outro lado da fronteira. Os tratados podem ter posto termo às guerras, invasões, cruzadas, colonizações, mas a ferida continua latente. Sob as roupagens de idiomatismos, frases feitas – verdadeiros lapsos de língua que involuntariamente trazem à luz palavras ou sentimentos inibidos – a parte oculta dos antigos ódios manifesta-se em assomos xenófobos ou racistas contra os inimigos de ontem, que vivem do outro lado da fronteira, que têm uma cor de pele ligeiramente diferente, ou que professam outra religião . Os visados, aliás, quando podem, quase sempre, pagam na mesma moeda.


Ingleses e franceses são um exemplo clássico deste pingue-pongue de velhos rancores desde a conquista da ilha bretã por Guilherme da Normandia (1066). Podem já não descambar numa Guerra dos Cem Anos (1337-1453), nem numa Guerra dos Sete Anos (1756-1763), mas sobrevive em expressões de desprezo como “to take the French leave” (despedir-se à francesa), a que os franceses ripostam com uma expressão equivalente, “filler à l’anglaise”. A memória das invasões ficou muitas vezes retida em expressões que designam os males que os invasores trazem consigo, como a sífilis, que em diversas línguas é batizada com nomes como “o mal francês” (para os italianos), o “mal italiano” (para os franceses), “o mal português” (na Índia), o “mal cristão” (entre os otomanos).

A língua é quase sempre o último reduto desses ódios recalcados. As palavras são de certo modo um espelho da sociedade, e o racismo e a xenofobia são ainda hoje os herdeiros dessas palavras que ferem, que podem mesmo matar. E que sobrevivem até aos dias de hoje, mesmo quando há muito se esfumaram as razões históricas que lhes deram origem.




José Lima




Nota do CTL: Este texto do Zé Lima é um excerto de um outro mais longo (Jogos de palavras) publicado no jornal online “Buala” (https://www.buala.org/). Serve como exemplo da dificuldade que espera o tradutor quando lhe incumbe, mais do que traduzir o que as palavras dizem, traduzir o que elas escondem.

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mai 28

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